Uma experiência na região da Cracolândia e um manifesto em favor da cidade

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Os bairros da Luz, Bom Retiro e Campos Elísios são conhecidos por concentrarem diversos pontos de cultura,  lazer e comércio popular e por ter grandes ícones da arquitetura da cidade.

Recentemente a região tem estado na mídia por conta das ações da prefeitura de São Paulo em conjunto com a Polícia Militar na região da Cracolândia.

Há uns dias atrás, um amigo foi roubado por ali. Apesar do susto e das ameaças, levaram apenas os celulares.

Eu estive no teatro Porto Seguro, que fica na rua Barão de Piracicaba, há duas quadras da maior concentração da Cracolândia. Apesar de já ter passado por ali muitas vezes – costumava usar a rota como opção de trajeto quando eu ia de Guarulhos para Pinheiros para trabalhar – foi a primeira vez que senti medo ao ver estranhos caminhando na rua. Todos, por ali, estão no mesmo barco. Alguns melhores, muitos outros em um estado de sobrevida.

Era quase 11h da noite quando saí do teatro e fui caminhando, por uma quadra, até o ponto de ônibus mais próximo. Nas calçadas, muitas pessoas tentavam se aquecer do frio. Quase ninguém dormia e os poucos que estavam caminhando por ali, logo se juntaram aos demais para  acenderem seus cachimbos e consumirem a droga.

O local do ponto de ônibus fica no Largo Sagrado Coração de Jesus, esquina com a rua Dino Bueno, onde fica a maior concentração de usuários de crack. O local é bem iluminado e estava policiado na ocasião. Logo entrei no ônibus e passei por esse local onde as pessoas se aglomeram e tudo parece ser muito mais um daqueles filmes de zumbis.

Meu sentimento ao passar por ali sempre foi de tristeza. É triste ver toda a situação que se passa ali – já teve vezes de ver gente saindo de dentro de bueiros. Triste imaginar quantas famílias se destruíram e quantas podem nem saber do paradeiro de seus entes queridos. Ainda mais triste, na minha opinião,  é pensar em como ignoramos esse tipo de coisa, pelo simples ato de pensar que é obrigação da polícia e do governo darem um jeito em tudo, por tratarmos pessoas assim como se pertencessem a uma espécie diferente da nossa e por deixarmos de fazer uso do espaço público como foi conceituado para isto – sim, tenho certeza que muita gente pensou que sou louca de passar por ali a pé,  enquanto poderia ter ido de carro ou solicitado um táxi ou uber.

Quando escolhi não ter um carro, mesmo sabendo que poderia passar por esta é situações ainda mais aflitivas, como perder o último ônibus voltando de algum show, foi porque quero experimentar a cidade desta forma.

Meu manifesto (e apelo) é de não deixar que nossa liberdade, enquanto cidadãos, seja vencida pela droga, pelo crime, pelos carros indo para todos os lados e ao mesmo tempo parados em congestionamentos gigantes com motoristas carrancudos e mal educados, enquanto deixamos de ver pessoas andando pelas ruas, ocupando a cidade das mais diversas formas, mesmo que as ruas de lazer aos finais de semana e as ciclovias sejam extintas, porque todos estão dentro de shopping,  alienadas pelo mercado do consumo e com a idéia de que aquela é a cidade ideal.

Antes de terminar, peço desculpas caso tenha atingido alguém de forma negativa. Penso que mesmo de uma forma ruim, gerar algum tipo de reação é um indício de que isso pode, um dia, gerar uma reflexão e mais debates sobre o assunto.

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